Variedade
*Só variedade absorve variedade*. Pois bem, hoje tem: mamutes, Titãs, Beer, Cibernética, Ashby, Televisão, Planos, Modelos e desenhinhos.
Assim como as outras séries cometidas neste finito, esta não tem um roteiro. Me ajeito aqui, relembro as pontas soltas do último episódio, e começo a escrever. Passei a semana pensando neste post. Provavelmente porque não enderecei bem a ponta que seria puxada hoje. Tem alguma coisa nos quatro episódios anteriores me incomodando. Nos devaneios, tropecei em quase 5 Porquês1:
Uma organização existe porque há informação. A informação pingou ali porque houve comunicação. A comunicação aconteceu porque houve organização. Fechei o loop. E empurrei a recursão justificando que ela é a resposta ou estratégia para o desenho de uma organização eficaz. Por quê?2
[Pausa: é um barato pensar assim, em público. E é meio constrangedor admitir que aquilo que soava tão óbvio de repente virou uma surpresa. Por quê?]
Desenhamos e usamos organizações para fazer tudo aquilo que seria muito difícil ou impossível de realizar sozinhos. Por que aquele trabalho, seja lá qual for, demanda um esforço coletivo? Tratei essa resposta de uma forma muito leviana no episódio Informação. Te peço nova chance. Vamos para o boteco. Porque…
… é happy hour em algum lugar
O PV vai pagar a conta hoje.
Vai. Onde já se viu transferir responsabilidade assim, de supetão?
O que ele quer da gente?
Que a gente costure aquela lógica. E responda: o que demanda um trabalho coletivo? Por que cargas d’água precisamos de organizações?
Bah!, porque pode ser muita água para o seu caminhãozinho pipa.
Para amplificar a nossa variedade!
Hã?!
Acho que ele espera uma resposta sistêmica ou cibernética. É uma pegadinha: devemos jogar essas obviedades na cumbuca teórica do Pensamento Sistêmico.
[Barulho de pratos quebrando]
Se a Dona Montserrat não desacelerar, daqui uns dias só vai ter copo e prato de plástico nesta bagaça.
Assim como a Dona Mont não pode desafiar a Lei da Gravidade, nós não podemos desafiar a Lei da Variedade Requerida.
Oportunista, você!
Pra gente não perder o fio da meada. Vamos lá, o que diz a lei? “Só variedade absorve variedade”. Todos os sistemas que nos interessam são abertos, ou seja, vivem uma vida de troca constante com o seu ambiente.
Acoplamento Estrutural!
Cara, você sempre com uma carta na manga3. Já decorou a gramática toda?
Decorar? De que adiantaria?
Gente. Foco! Senão o PV não paga a conta. Vamos lá, onde estamos?
No acoplamento estrutural. Mas eu não sei o que isso tem a ver com a Lei de Ashby…
Tudo! De onde vem a variedade que precisa ser absorvida por um sistema?
Do ambiente.
Assim como veio do ambiente aquele mamute imenso que ninguém conseguiria matar sozinho. Nem o mais engenhoso da trupe — aquele que amarrou uma pedra pontuda num galho bem reto e chamou de lança. Líder esperto, ele desenhou uma organização. Ele formou um bom time. E o que configura um bom time?
Um time que consiga absorver toda a variedade que vem do mamute.
Péra.. péra. Dona Mont, reabastece o nosso baldinho, por favor! E gente, please, explica essa “variedade que vem do mamute”. Devagar. Dona Mont, devagar!
Vamos lá. Variedade é uma unidade de medida. Ele mede o número de estados de um sistema. Vamos começar com um sistema bem simples. Seu copo, por exemplo, tem quantos estados?
Está vazio. Vai ficar cheio. Tem hora que tá meio a meio.
Tem hora que tá gelado. Outras vezes, quente. Sujo ou limpo.
E pode estar quebrado também.
Tá vendo? Variedade. Contamos 8 estados.
Legal.
E um mamute, quantos estados ele pode assumir?
Sei lá…
Ah, pera. É um bicho pesadão, né?
Era!
Larga de ser chata. O mamute é pesadão. Não é ágil.
Assim como a sua empresa.
Caraca, dá um tempo! O mamute pode correr para qualquer direção. Não é ágil mas corre. Pode atacar. Será que ele consegue levantar as patas dianteiras?
Gente, não importa. Nós não precisamos quantificar com precisão toda a variedade de um sistema. Estamos falando de sistemas complexos. “Grandes demais para a matemática e pequenos para a estatística”, como dizia o Weinberg4.
Exatamente. O que interessa é que o time tenha condições de lidar com toda essa variedade. Além das habilidades e ferramentas, o time tem que ter um bom plano.
Xi, lá vem o PM…
Ah, tá, você acha que sem um bom plano eles conseguirão “absorver” o mamute?
Cara, é só comer aos pedacinhos. Não é assim que se faz?
Dito popular que faz apologia ao reducionismo, é meio cínico e muito errado!
Lá vem a purista sistemática de novo…
Antes de comer o elefante pré-histórico aos pedacinhos, precisamos caçá-lo. A caçada demanda um plano.
E um plano tem a variedade requerida?
Se for bom, sim. Box5: todos os modelos estão errados, mas alguns são úteis em algum momento. Ou seja, têm a variedade requerida, no momento certo, no contexto certo.
Teorema Conant-Ashby6?! Pô, o cara tá gastando as cartas hoje!
Mandou bem!
A Lei de Ashby diz que a nossa variedade precisa ser igual ou maior do que a variedade que vem do mamute. Um plano amplifica a nossa variedade.
Um BOM plano, você quer dizer.
Um bom MODELO DA SITUAÇÃO, eu quero dizer.
Gostei. Mas dá pra gente explorar o tema um pouco mais, não dá?
O exemplo do mamute não foi suficiente?
Faltou variedade.
Ok. Vamos com Brasil e Alemanha na Copa de 2014 ou com os carros pretos do Henry Ford?
Ah, não, esses exemplos de novo, não!
Ainda acho que somos o melhor exemplo. Olha como estamos sobrecarregados. Há uma epidemia de burn-out, dizem. Acho que não precisamos de melhor exemplo de desequilíbrio.
De sistemas capengando para absorver toda a variedade que chega do ambiente, certo?
Exatamente. Beer7 já reclamava dessa sobrecarga no início dos anos 1970, imagina! Por causa da comunicação eletrônica da época — rádios, TVs e computadores à lenha.
Mas ele dizia que a sobrecarga existe porque usamos esses meios da forma errada, particularmente os computadores.
Sim. Não vou lembrar exatamente as palavras dele, mas é mais ou menos isto: não entendemos a real utilidade dos computadores. Ao invés de usá-los como redutores da variedade que chega do ambiente, os usamos para amplificar essa variedade. Nas empresas “de antigamente”, esse mau uso ficava claro na quantidade de relatórios e na extensão deles. E dá-lhe formulários contínuos!
E dá-lhe dashboards, OKRs e KPIs…
E dá-lhe scroll infinito! Até quem inventou essa merda ficou doente.
Pensa no poder de síntese de um termômetro. Ele reduz para apenas um número uma incrível variedade de variáveis… ops!
Pois é, ficou esquisito. Mas acho que entendi. Os computadores, se bem utilizados, fariam síntese semelhante.
Sim! Por isso o mesmo Beer falava que “dados são excrescência”.
Big merda!
Computadores, quando bem utilizados, têm duas funções: eles atenuam a variedade que chega do ambiente e amplificam a nossa variedade. Esta deveria ser a razão de existir deles: nos ajudar a lidar com a variedade, com a complexidade que só faz crescer lá fora.
Mas, pelo visto, invertemos os sinais. Usamos computadores, smartphones e afins para puxar cada vez mais variedade. Os ruídos que chegam do ambiente ganharam um megafone!
E isso tem nos deixado extenuados e abobados. Nossos gadgets, ao invés de amplificar a nossa variedade, a reduzem. Nos deixam mais burros.
“Muito burros demais”.
Titãs!
Dona Mont, tem Titãs nessa playlist erudita?

Cotação 🎶
Ferramenta que nos permite explorar relações de causa e efeito e a descobrir uma causa raiz, seja lá o que isso signifique. Na Wikipedia.
E por que você não reclamou da lógica meio cambeta?
Eu traduzi a Gramática de Sistemas na forma de cartas. Elas aparecem no Curso de Pensamento Sistêmico.
Stafford Beer, na Wikipedia. Beer teria completado 99 anos na semana passada, dia 25/9. Neste pequeno trecho de uma palestra, falando sobre variedade, ele diz que estamos “perdendo a lembrança do que significa estabilidade”. Por causa da explosão de variedade que chega por todos os lados. Com frequência cada vez maior.






