É Muito Abstrato
O Pensamento Sistêmico dá o que pensar... hã?!
Tristes tempos em que a gente precisa mendigar fidbeque. Eu dei sorte na primeira edição do curso de Pensamento Sistêmico. Contei com participantes muito generosos. Gente que entende que nenhum sistema melhora se não contar com fidbeque (sincero)1. Já desfilei algumas críticas e autocríticas por aqui. Hoje eu vou falar especificamente sobre um comentário:
O Pensamento Sistêmico é muito abstrato.
Leovegildo, nome de mentirinha, confessou que viaja (devaneia e vai longe) quando fica certo tempo no abstrato. Ou seja, o ciclo entre a apresentação de uma ideia e a sua tangibilização deve ser bem curto. Durante o papo tentei me lembrar dos momentos mais etéreos do curso. Minutos depois, com um sorriso meio bobo no rosto, pensei:
Peraí, mas qual pensamento não é abstrato? Que papo é esse?
Querida, eu entendi a crítica e sei que preciso trazer mais e melhores exemplos para o curso. O que me trouxe para este post é outra coisa. É a abstração propriamente dita ou, melhor dizendo, o nosso problema com as abstrações.
Atenção!
Nossa atenção fica a cada dia mais cara. Lei da oferta e da procura. Está cara porque é cada vez mais rara. Prestar atenção — e como foi feliz quem decidiu que em inglês se fala pagar atenção, pay attention — [prestar atenção] é caríssimo em termos fisiológicos. Tanto que a nossa concentração é um eficiente queimador de calorias. O aumento do número de distrações está comprometendo a nossa capacidade de concentração. Estou chovendo no molhado, eu sei. Mas eu preciso dizer que não dá para ser um pensador — sistêmico ou não — quando a permanência no abstrato é um incômodo. Eu sei, que papo estranho. Porque pensar é estar ali, no abstrato:
Você deve se lembrar de minha teimosa matriz 2x2 que tem mais utilidades que um bombril. Na versão acima eu troquei a dicotomia Análise X Síntese por um par mais promissor2 e menos abstrato3: Pesquisa X Ação4. O que nos interessa agora é o eixo vertical5.
Quando estamos no hemisfério de baixo, estamos no mundo real. Estamos lidando com sistemas naturais — a gente, particularmente — e as coisas físicas que inventamos, all inclusive.
A metade superior só existe em nossas cabeças: teorias, hipóteses, ideias, planos, preconceitos, entendimentos, preocupações, palpites, modelos etc. Gaste um tempinho ali. Agora.
Pense e Dance
A figura acima representa um sumário da primeira versão da SSM - Soft Systems Methodology conforme definida por Peter Checkland6. Repare que ali no meio ele traçou uma linha para separar o mundo real do Pensamento Sistêmico. Não me pergunte por que essa turma insiste em colocar a realidade na metade superior e nossos pensamentos na inferior. Traduzindo e corrigindo7:
Um dia eu coloquei o ciclo OODA (Observe, Oriente, Decida e Aja) dentro dessa matriz e ele encaixou como uma luva. Começamos sempre no quadrante inferior esquerdo. Ou seja, é sempre uma coisa no mundo real (evento, fenômeno, problema ou oportunidade — enfim, uma muito provável emergência) que chama a nossa atenção e dispara um ciclo de aprendizagem. Os termos OODA vieram de um piloto de aviões de caça, John Boyd. Para o nosso dia a dia civil há nomenclaturas mais adequadas. Por exemplo: Descoberta, Exploração, Desenvolvimento e Entrega. Essa quadra atende qualquer trabalho que lide com problemas, oportunidades e situações mal definidas. Por que estamos conversando sobre isso (de novo8)?
Só para te dizer que não há trabalho mais rico e desafiador do que aqueles que ocorrem na parte superior da matriz. Nossa criatividade é exigida ao máximo na Exploração (quadrante superior esquerdo). Até o Boyd dizia que aquele era o melhor lugar para estar — quando ele criava e cogitava alternativas. Mas ficar muito tempo ali, no contexto dele — em batalhas aéreas! — era uma questão de vida ou morte. Nós não temos essa desculpa para fugir das abstrações.

Enquadrado
Disparei uma série de vídeos curtos (7’32” ~ 13’57”) para mostrar de um jeito diferente o Curso de Pensamento Sistêmico. Vou guardá-los aqui também9, caso você não se importe.
Cotação
A arte da reinvenção será a habilidade mais crítica deste século.
Será que algum dos clássicos pensadores sistêmicos um dia imaginou ter que qualificar fidbeque assim, destacando os sinceros?
E mais correto em termos sistêmicos. Porque análise, por definição, é reducionista.
Kkkkk!
Estou referenciando diretamente a Pesquisa-Ação — Action-Research, criada por Kurt Lewin e esticada por Peter Checkland, dentre outros.
Que eu chamaria de Ontológico se você me permitisse. O que me obrigaria a colar um Epistemológico no eixo horizontal. Mas até hoje eu não encontrei ninguém disposto a esticar esse papo. Que coisa!
Talvez seja mais prático e simples entender que temos o Espaço em y e o Tempo em x. Risco: toda vez que eu desenhar uma espiral para representar o aspecto iterativo de uma Metodologia, algum filósofo pós-moderno com muito tempo e pouquíssima boa vontade vai perguntar se eu estou sugerindo uma volta no tempo.
Em Systems Thinking, Systems Practice (Wiley, 1999, 1981).
Eu sei que minha versão “corrigida” tem um belo bug. É que ela é otimista — considera que a ação (7) será conclusiva. A gente sabe que (quase) nunca é. Preciso desenhar uma seta bem grossa de 7 para 1? Não deixei esses dois colados, a exemplo do Checkland, porque minha matriz quer ver bem distantes o início da pesquisa e o fim do giro, a ação propriamente dita.
Eu sei, parece repetitivo. Mas, veja bem: é a primeira vez que você vê outra metodologia, a SSM, dentro daquela matriz. Ou seja, repito sim. Mas a cada iteração há uma novidade, um incremento.
Porque o repositório natural para esse tipo de coisa é o Youtube. Eu tenho um canalzinho lá, ainda pobre em conteúdo e transeuntes. Acho que preciso mexer nesse sistema. O que você acha?




